Espelho, Espelho meu

Os espelhos retrovisores vendidos no Brasil, veja só, não são homologados por nenhum orgão oficial. Com isso os riscos são grandes, especialmente na reposição.

É fato: um caminhão fabricado hoje em dia transborda tecnologia. No motor, no câmbio, no design. E no espelho retrovisor? Ué, trata-se somente de um espelho. Um espelho!, oras bolas.

Na verdade não é bem assim. É até difícil imaginar, sequer pensar nisso, mas um retrovisor está ligado à segurança do veículo. E, por isso mesmo, também é cheio de tecnologia.

Pedra - Imagine a cena: um caminhão trafegando por uma das planas estradas do Interior do Brasil levanta uma pedra, ou pedrisco, ao passar num buraco - fato extremamente raro, convenhamos, mas apenas coloquemos a hipótese. Essa pedra bate no espelho retrovisor e ele se despedaça, mandando estilhaços com efeito de granada em direção ao rosto do motorista. Podemos parar por aqui.

Outro caso não tão extremo, mas igualmente perigoso: na mesma estrada lisa feito tapete o espelho externo do motorista vibra intensamente. A visão do condutor se cansa aos poucos e, para não se estressar mais, ele apenas bate o olho de vez em quando. Sai para uma ultrapassagem mas um carro ao seu lado ja está realizando a manobra - ele não o viu devido à vibração do espelho e à rapidez do olhar. Também podemos parar por aqui.

"Espelho retrovisor é um item de segurança que precisa estar o tempo todo funcionando sem mínima falha", adverte Ralf Thibes executivo da Lang Mekra, fabricante de retrovisores instalada em Sorocaba, SP. A empresa, especializada em linha pesada, fornece para Ford, Mercedes-Benz, Scania, Volkswagen e Volvo. "Isso é indiscutível."

Basta uma visita à sua linha de montagem para enteder a complexidade da fabricação daquilo que parece apenas um mero espelho. Para evitar a triste cena do estilhaçamento, por exemplo, atrás do vidro existe uma fita adesiva especial que segura os pedaços que poderiam voar em direção à cabine.

Outros processos sofisticados garantem que o espelho não sairá do ajuste ou que o vidro não se soltará da base mesmo com fortes pancadas ou vibrações. Ou, ainda, que o controle elétrico continuará funcionando perfeitamente.

E cuidado ainda maior vai para a própria superfície do vidro, especialmente nos espelhos convexos. Em caso de defeito na curvatura um objeto em movimento ou pessoa poderá parecer mais longe do que realmente está e do que se vê no restante da imagem.

"A fabricação de um espelho retrovisor envolve muito conhecimento", assegura Ari Saraiva, diretor-presidente da Saraiva Retrovisores, de Florianópolis, SC, que fornece para Agrale e Marcopolo. "E tecnologia profunda, difícil de visualizar apenas pela observação do produto final."

Sendo assim é certo que existirá legislação para que parâmetros de segurança em espelhos retrovisores sejam respeitados, em nome da vida de todos no trânsito. Sim, existe! Atende pela norma 636/84, do Denatran, o Departamento Nacional de Trânsito, e NBR 9 181 e 9 185, da ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas.

Se você suspirou aliviado pode tratar de engolir o suspiro. A norma existe, mas não o processo de homologação. Isso significa que ninguém, absolutamente, garante que qualquer espelho vendido no País cumpre tais normas.

Em outras palavras um espelho pode ter uma carcaça frágil, não possuir a fita anti-estilhaçamento por trás e vibrar feito britadeira batendo em calçada que ainda assim será vendido livremente. Nada será fiscalizado e o fabricante não será punido.

A situação é resultado de um lodaçal burocrático da qual parece ser impossível escapar. Nem o Denatran nem o Inmetro nem a ABNT sabem dizer, efetivamente, de quem é a responsabilidade sobra a homologação e muito menos sobre a fiscalização dos produtos vendidos.

O Inmetro diz que não faz teste com nenhuma espécie de espelho retrovisor simplesmente porque não foi solicitado pela via oficial para tal - o órgão faz testes freqüentes com pneus e sistemas de gás veicular. A ABNT diz que seu trabalho é fazer a norma, o que cumpriu. E o Denatran diz que não tem nada a ver com o problema.